Reflexão sobre o sofrimento – Regina Lopes

Reflexão sobre o Sofrimento
 
SOFRIMENTO1
 
Debruçada sobre uma poesia de Fernando Pessoa (A Tabacaria) pensando em utilizá-lo como texto disparador em uma aula, lembrei-me de certa pessoa que me procurou. Ela relatou ter sofrimento um rompimento há dois anos e desde então tem estado apática.
O sofrimento é natural e natural é tudo aquilo que não foi acrescentado, faz parte da condição humana. O sofrimento está em mim, está em você. Nós o experimentamos de forma pequena, de forma grande, pois nós somos limitados.
O nosso limite é tão grande que nós não sabemos viver sem o outro, por esta razão nós sofremos quando o outro vai embora da nossa vida. A condição de limite nos faz pensar o outro como parte de nós.
Eu, porque sou limitada, porque tenho limites, preciso amar, pois o amor nasce do limite, quando nós reconhecemos que nós não damos conta da vida sozinhos. Talvez seja por isso que doa tanto no coração do ser humano no momento em que se é traído por aqueles a quem se ama. Talvez seja por isso que doa tanto no coração do ser humano no momento em que o ser trai a quem amam, pois quando o ser humano é traído ele fica ainda mais limitado.
O amor do outro faz o ser humano viver a experiência do complemento. O ser humano se torna maior porque outro ser o ama, e cada ser humano fica maior quando ama alguém. Por esta razão o sofrimento é natural À saudade é uma concretização do limite: “Eu sinto tanto a sua falta”. Saudade de pai e mãe é uma das coisas mais doídas que nós podemos viver na vida. A certeza de que eles velam por nós nos fazem pessoas felizes.
É difícil ficar distante – é o complemento que nos falta. A saudade nos ajuda a compreender o quanto nós amamos. Retire uma pessoa de sua vida, pense sua vida sem esta pessoa e você irá descobrir o quanto você a ama. É experiência de limite. O amor é sofrimento e quanto mais nós mergulhamos na capacidade de amar, maior será a nossa sensibilidade para o sofrimento.
Talvez você pergunte: “Então quanto mais nós amamos, mais nós sofremos”? Eu lamento informar que sim. Pois a experiência de amar é a experiência de tocar o limite, por esta razão o sofrimento está tão atrelado ao amor.
Nós não sofremos quando nós não amamos. Não há causas para sofrer quando você não ama, mas eu lhe pergunto: É possível viver nesta vida sem o envolvimento do amor? Penso que não seja possível.
Nós nos experimentamos limitados o tempo todo e o tempo todo nós estamos precisando de alguém do nosso lado – alguém que olhe em nossos olhos e diga “eu estou aqui”. Alguém que segure nossa mão na hora de atravessar o túnel. É o momento em que nós mergulhamos na mais bonita aventura humana – é quando nós reconhecemos “eu preciso de você”. Quando a vida vai te apertando tanto que não resta outro grito: “eu preciso de você”.
Talvez seja por esta razão que nos momentos de maiores apuros na nossa vida o primeiro nome que nós gritávamos era “mãe”, pois é a primeira experiência de complemento que você tem. Mãe é alguém que te “expulsou” para que você nascesse e alguém que começou a dar sentido a sua capacidade de amar. Amor de complemento – e depois nós vamos passando pela experiência de amar outras pessoas porque um dia você foi amado.
E porque somos amados,  o sofrimento faz parte da nossa vida. Não há amor sem sofrimento e não há sofrimento sem amor. Por esta razão nós não podemos criar dentro de nós uma ilusão: “A partir de hoje a minha vida vai ser linda. Não vai haver dificuldades”.
Infelizmente esta notícia nós não podemos dar aos amantes. As pessoas que verdadeiramente amam nesta vida sofrem por grandes causas. Elas não são indiferentes ao sofrimento  dos que estão do lado e por isso Jesus convida o tempo todo seus amigos a viverem a experiência do amor.
O sofrimento de Jesus foi porque nos amou. Ele não sabia ficar indiferente as pessoas. Seja honesto com você. O momento em que você mais sofreu, foi o momento em que você mais amou ou que você identificou o amor traído ou o amor ausente.
É seu! É sua riqueza! O meu grande desejo é que você ao ler este texto tenha coragem de abrir a sua caixa de sofrimento e vê que a caixa não é tão feia assim. Ela está cheia de amores. Ela está cheia de situações bonitas que você precisa reorganizar e que estão aparentemente embrulhadas em papéis estranhos. O sofrimento costuma embrulhar com papel estranho aquilo que é bonito.
Talvez você diga: “Mas não é bonito ver partindo alguém que nós amamos”. É sim. Pois naquele momento em que ela está partindo – que é um processo naturalíssimo da vida, você está identificando que um dia alguém extraiu o que você tinha de melhor.
Nós não choramos por quem não fez a diferença em nossa vida. Se você está sofrendo por alguma causa é porque isto é importante para você. Por isso nós não podemos desprezar a matéria do sofrimento. Por isso nós não podemos fechar a porta e dizer: “Aqui você não entra”.
Como não entra, se ele está justamente parado na porta para mostrar aquilo que você tem de mais precioso?
Há um livro de Fábio de Melo que li há uns três anos atrás e ele começa com a seguinte frase: Quando o sofrimento bater á sua porta é melhor abrir. Resistir ou negá-lo é apenas um jeito de fugir do que mais cedo ou mais tarde você terá que enfrentar”.
Nós não temos como deixar de sofrer porque nós não temos como deixar de amar. E se você tivesse que passar hoje pelo processo de escolha, muito provavelmente não iria querer deixar de amar.
Quando pensamos nas melhores coisas da vida descobrimos que para elas serem boas de verdade, nós precisamos ter alguém do nosso lado (e as piores também). Seja para viver a alegria extrema, ou seja, para viver a dor extrema. Nós precisamos de pessoas ao nosso lado dizendo: “eu estou aqui”.
Nós não temos como mudar esta perspectiva. O sofrimento nasce do limite – o limite nos esbarra o tempo todo. Seja por uma enfermidade, por uma traição, porque sente dor, pela partida, porque deseja aprisionar o outro. O limite está aí.
Num instante você acorda e a vida não é mais do jeito que você queria. Num instante as pessoas que você ama vão embora. Num instante as pessoas morrem de maneira trágica e nós ficamos aqui com a vida precisando dar um jeito nela. É o parto novamente! É a nossa experiência de estar mais uma vez no útero da vida sofrendo o processo da contração e a vida nos expulsando. E agora? O que você vai fazer?
 Chegamos ao primeiro ponto: Nós não podemos mudar o fato de ter que sofrer. Você não pode mudar o fato de ter que sofrer. Então nos chega uma pergunta: Se nós vamos ter que sofrer nesta vida, então nós precisamos descobrir como sofrer. Não é tanto porque sofrer, mas como sofrer.
Quantas vezes você se pergunta: Meu Deus porque estou sofrendo tanto assim?
Você já conseguiu chegar a alguma resposta? Nem sempre! Nem sempre nós encontramos respostas para as causas dos nossos sofrimentos. Nem sempre nós conseguimos chegar à resposta do porque a dor bateu a nossa porta. Agora eu pergunto: Se você não pode chegar à resposta – (ou se chegar não vai adiantar muita coisa). Não alivia o sofrimento. Então qual seria a outra pergunta que nós poderíamos fazer?
Nós não temos como mudar a dor. Ela está aqui. Batendo a nossa porta, então agora nós precisamos descobrir como sofrer. Não adiantará muito você alimentar o sofrimento com perguntas inférteis.
Quantos seres humanos se alimentam de perguntas inférteis: “Porque isto aconteceu?” Quanto mais insistem no “porque”, menos razões encontram para continuar vivendo, pois o poder do “porque” é justamente neutralizar a solução.
Algo ruim alcança o ser humano e ele não para de pensar naquilo: “porque isto aconteceu, porque comigo, porque ele fez isto? ”.
O por que é uma pergunta natural diante da vida. Nós somos filósofos desde o início. Este é o tema principal da Filosofia. Quando nós éramos crianças nós vivíamos perguntando “porque”. Nós queremos saber a razão de tudo e muitas coisas nós podemos encontrar as respostas – é matemático, é científico, é lógico, mas existem momentos em que não conseguimos chegar a nenhuma resposta, pois esta resposta não existe. E o que o ser humano faz no momento em que não tem respostas? Sofre.
É limite. Não saber o por que coloca dentro do ser humano uma pergunta lhe faz sofrer. Mas o grande problema é que perguntar o “porque” não alivia a dor. Você conheceu alguma pessoa que ficou curada perguntando “porque”?
Existem momentos em nossas vidas que não combinam com perguntas. Não há nenhuma pergunta que seja capaz de responder uma tragédia. Não há pergunta que possa dar conta de aliviar o coração de uma mulher que perde um filho.
O que você precisa fazer é parar de perguntar, pois quanto mais você pergunta, mais distante você fica do consolo que poderia encontrar. Quanto mais você se pergunta o por que da tragédia, menos possibilidade terá de continuar a vida. Perde-se a capacidade de persistir.
O por que só serve para fechar o ser humano egoisticamente em si mesmo e fazendo a pergunta infértil o ser humano jamais resolverá dentro de seu coração o conflito que as tragédias promovem.
O mais honesto é sofrer o que tem a sofrer, mas permitir que a vida continue.  A causa de muitos sofrimentos está em justamente não permitir que a vida prossiga.
Tenho estudado sobre sofrimento e suicídio nas empresas devido a duas apresentações que farei e penso que o ser humano tem estacionado o seu “trem” na estação triste e não partem. O trem não parte e as pessoas que estão no mesmo vagão estão precisando viver e este ser humano não tem permitido que o trem siga seu curso, que prossiga.
As pessoas são acorrentadas no sofrimento do outro, pois a partir do momento em que nós nos recusamos a superar o sofrimento que nos envolve, nós fazemos sofrer todos os que estão a nossa volta, pois os que nos amam também sofrem porque nós estamos sofrendo.
Por esta razão a reação mais justa, mais honesta diante do sofrimento é a superação. Sempre!
Organize o seu luto. Chore a sua dor de perder. Organize a sua tragédia, mas continue vivendo. Olhe nos olhos de quem ficou. Olhe ao seu redor e descubra os motivos pelos quais ainda você pode continuar a vida. O sofrimento que visita o coração do ser humano não pode ser causa de ruina. Ele precisa ser causa de ensinamento.
Quantos seres humanos que são incapazes de administrar o luto. Desarrumam tanto suas “casas” que não sabem mais o que fazer com ela.
Desde que nascemos ninguém nos prometeu que a vida seria fácil. Ninguém nos iludiu dizendo que a vida seria simples, mas o que acontece com o ser humano que parece nunca está pronto para sofrer? Parecem que nunca estão prontos para dar a volta por cima.
Penso que a razão seja a imaturidade. O ser humano está cada dia mais imaturo. A imaturidade está prevalecendo tanto, o ser humano muitas vezes é “anão” afetivamente. Crescem no tamanho, mas não crescem na capacidade de estabelecer o pacto com a vida aconteça o que acontecer.
E nós identificamos as pessoas interessantes no mundo à medida que nós descobrimos pessoas que foram capazes de superar e permanecer de pé. Seres humanos que não se curvam diante da dor, seres humanos que não permitem que a vida os sepultem. Seres humanos preparados, seres humanos que sabem perder, seres humanos que sabem encarar o sofrimento, seres humanos que fazem de sua tragédia o ponto de partida e não o ponto de chegada, seres humanos que aprenderam a subir o calvário, pois o calvário é justamente o lugar de purgar tudo o que é excessivo no ser humano.
Quando os seres humanos não se esforçam para superar a sua dor, eles aprisionam outros no mesmo sofrimento. O sofrimento pode despertar o que o ser humano tem de mais egoísta.  Quantas pessoas se tornam interessantes quando tomam a iniciativa de não permitirem que o sofrimento seja o ponto de chegada. Não permitem que a vida os suputem mais do que a própria morte.  O poeta Mia Couto disse certa vez: “Para alguns,  a vida sepulta mais que a morte. ”. 
Quando o ser humano não dá conta da vida, quando não dão conta de olhar para as dificuldades que tem, quando não encaram seus limites de forma positiva, quando se curvam as suas fraquezas, as suas fragilidades, quando criam este espírito de vítima, de gente “coitadista” (uma expressão de Augusto Cury) e seguem proclamando o que a vida fez com eles.
Por favor, compreenda o que direi: Eu não estou interessada naquilo que a vida fez com você. A mim interessa o que você pode fazer com a vida.
O que a vida fez com você, eu não tenho como mudar e eu ainda não encontrei nenhum ser humano que seja capaz de mudar o que a vida fez. Isto é passado. Nós não temos como “levantar o muro”, nós não temos como evitar a tragédia, não temos como fazer o tempo voltar. Quem me dera ter este dom!
Você não tem como mudar o seu passado. Não tem como mudar o que te aconteceu. Cada ser humano carrega em si marcas profundas de sofrimentos passados, de coisas que aconteceram, mas alguns ainda hoje são levados pelo cabresto.
Se não for compreendido de maneira correta, o sofrimento se transforma em cabresto. Aquela corda que puxa o animal dando direção para onde o dono deseja. O cabresto do cavalo firma nas duas partes da cara e se o dono deseja que ele vire para a direita, então a corda é puxada para a direita, se deseja que vire para a esquerda, então a corda é puxada para a esquerda. Quantos seres humanos no cabresto do sofrimento, pois não foram capazes de assumir a autoria da vida no momento da dor. Preferiram ficar perguntando “porque”.
Sabe por que ainda não chegou à resposta depois de dois, três, vinte anos? Porque ainda não fez a pergunta certa!  Ficam na pergunta equivocada e jamais chegarão à resposta porque a sabedoria nos ensina que ao invés de perguntar por que está passando por esta situação, deveriam se perguntar “como eu passarei por isso agora”. É desafio de gigantes!
Se desejarmos ser gente, precisamos olhar para a vida com coragem, de frente. Chega de seres humanos fracassados! Chega de gente indisposta para assumir a vida! É assustador o despreparo humano no mundo de hoje. Seres humanos jogam para cima com facilidade os problemas que são seus e tudo porque querem uma vida “bonitinha, organizada, feliz”.
Fábio de Melo  diz que “sofrer é como experimentar as inadequações da vida. Elas estão por toda parte. São geradas pelas nossas escolhas, mas também pelos condicionamentos dos quais somos vítimas. Sofrimento é destino inevitável, porque é fruto do processo que nos torna humanos”. Para mim o grande desafio é fazer outros seres humanos (seja no hospital, nas empresas, nas escolas e até mesmo na igreja onde congrego) identificar o sofrimento que vale a pena ser sofrido e sofrer da maneira certa.
 
Até breve!
Regina Lopes
 
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