Mensagens Evangélicas de Reflexão

Olhando Para o Meio Fio – Regina Lopes

Olhando Para o Meio Fio

 

 

Quando nos predispomos, quando somos fisgados pela percepção da existência da diferença como valor, como expansão da riqueza humana e não como um demérito, perdemos o chão das verdades, da razão, das certezas fechadas e absolutizadas e nos colocamos no campo da dúvida, do devir, da pergunta, da inquietação, da errante busca, da incerteza.

Qualquer concepção teórica ou prática de desenvolver encontros com as diferenças, no cotidiano é passível de crítica, de análise, de necessidades, de acertos, ajustes. Todas são insólitas, na medida da metamorfose constante da própria vida, afinal, nenhum rio passa duas vezes no mesmo lugar.

Há um mês participei de um congresso que muito me enriqueceu. Para todos os lados havia doentes mentais. Circulavam com total liberdade. Tinham voz. Nesta oportunidade conheci Moisés. Ele passou 40 anos de sua vida dentro de um manicômio. Moisés contou sua história, mas o que me chamou a atenção foi quando ele disse: “Certo dia uma psicóloga disse que eu tinha um discurso muito bonito, mas me faltava ação. Aquilo me aborreceu tanto que tomei uma atitude. Hoje eu tenho um belo discurso e tenho ação. Hoje eu tomo conta de mim. Trabalho mora de aluguel, pago minhas contas”. E para encerrar nosso encontro Moisés cantou algumas de suas composições. Tive a oportunidade de conhecer outros e além de dar muitas risadas, saí daquele lugar muito mais rica, muito mais questionadora.

Existem encontros que nos convidam a olhar para o meio fio. Existem encontros que nos fazem enxergar uma realidade que muitas vezes é camuflada por encontros que são alienados e alienantes. Encontros onde seu tema, em vez de ser a pessoa humana e sua vida, é a destruição do humano, seja a autodestruição, seja a destruição induzida.

Existem encontros que são a manifestação do vazio e do sem sentido. Ele destina-se a esquecer do dia a dia para vencer o enfado por uma vida sem sentido. Os encontros em que se consomem drogas, sobretudo o álcool, para provocar “viagens” ao país maravilhoso dos sonhos, pertencem a este tipo. Quando o encontro é assim, é sem esperança e sem graça. Seu resultado é uma grande ressaca no dia seguinte e, talvez dias seguidos.

Existem encontros como afirmação do poder. Aqui o sentido da vida é a opressão do outro. É fazer a história desrespeitando o outro. Com relação ao passado, o encontro ditatorial quer glorificar o que se alcançou. Com relação ao futuro, quer proclamar as metas do poder. O ser humano é tema desse tipo de encontro, enquanto objeto que serve aos poderosos e seus sonhos, enquanto objeto através do qual os poderosos se auto incensam. Há encontros que “não pegam”, porque sem sentido, a não ser a manifestação arbitrária do poder dominador e arrogante.

Há encontros como circo. Pão e circo: pão para atenuar a fome e circo para distrair o espírito. Este tipo de encontro desvia o povo de assumir a história, engabela, não leva a nada, não desperta a consciência, o sentido da vida, não faz emergir uma espiritualidade e uma mística para a práxis transformadora. Antes, afasta o povo da tarefa de transformar a sociedade.

Os encontros verdadeiros, legítimos encontros, olham as tensões de frente, iluminam o presente a partir do futuro, contestam o presente opressor e alienante, é questionamento frente a uma realidade que se aguenta, mas não se pode e nem se deve aceitar.

Todo encontro verdadeiro requer que se tenha algo a festejar.

O encontro verdadeiro nada tem de esbanjamento. A farra do consumo pouco tem a ver com este tipo de encontro e de alegria. Hoje em dia, com tanta exclusão e miséria, a alegria verdadeira é celebrada na partilha e na austeridade. Não se trata de economizar para não gastar, abarrotando os cofres dos bancos e aumentando as aplicações financeiras. Trata-se de partilhar. Há gente que economiza a vida inteira, multiplica cadernetas de poupança, aplica em bolsas de valores, imóveis, moeda estrangeira, não partilha. Esta austeridade é sem sentido, Só uma vida simples, sóbria e austera é capaz de gerar mais vida no mundo, desde que assumida na dimensão da partilha e da gratuidade. O contrário disto tudo é avareza.

O maior inimigo de todas as místicas é a voracidade de consumo, alimentada pelo livre mercado em sua lógica do desejo e não da necessidade.

Nem todo encontro é fonte de alegria e de festa. Há muito encontro que é feito com novas escravidões. Encontros que desumanizam.  A mística do cristão não tem medo de se envolver em enfrentamentos quando se trata de defender a dignidade humana, sobretudo dos mais indefesos, pobres e injustiçados. O enfrentamento é inerente à pessoa humana. Um cristão que não toma posição nunca terá enfrentamentos, mas também nunca será cristão. Hoje se exorciza muito o enfrentamento. Não aceitar o enfretamento significa dobrar-se diante das ideias e místicas hegemônicas. O compromisso foi proposto por Jesus: Depois chegaram a Jericó. E, ao sair ele de Jericó com seus discípulos e uma grande multidão, estava sentado junto do caminho um mendigo cego, Bartimeu filho de Timeu. Este, quando ouviu que era Jesus, o nazareno, começou a clamar, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim! E muitos o repreendiam, para que se calasse; mas ele clamava ainda mais: Filho de Davi tem compaixão de mim. Parou, pois, Jesus e disse: Chamai-o. E chamaram o cego, dizendo-lhe: Tem bom ânimo; levanta-te, ele te chama. Nisto, lançando de si a sua capa, de um salto se levantou e foi ter com Jesus” Mc 10-46-50.

Esta passagem é muito interessante. Primeiro mandam Bartimeu calar a boca e após o enfrentamento de Jesus dizem ao cego “anime-se”.

Jesus aceitou o enfretamento em sua vida. Mais ainda, não o camuflou e o escondeu. Às vezes temos a impressão de que Ele foi à pessoa do contra. Sem dúvida nenhuma o foi. No entanto, sua grande opção foi pelo sim. Ele era do contra porque era a favor. Ele trouxe para o centro da vida quem estava à margem, na periferia do mundo social, político, econômico, cultural e religioso.

O Evangelho de Marcos relata uma discussão dos discípulos que se perguntavam quem seria o maior no Reino de Deus. O evangelista diz que Jesus colocou uma criança no meio deles (Mc 9.36). Trazer para o centro significa lutar contra todas as marginalizações. Havia muita gente na periferia da vida: mulheres, crianças, estrangeiros, doentes. Colocá-los no centro significa mudar de perspectiva. O mundo começa onde estão os marginalizados e não onde estão os marginalizadores e as estruturas de pecado e de injustiça.

A verdadeira espiritualidade é feita num mundo de iguais. Não há lugar para “especialistas”. Há uma frase de Agostinho de Hipona que muito me abençoa: “Aterroriza-me o que sou para vos; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou bispo; convosco, sou cristão. Aquele é do ofício recebido; este, da graça; aquele do perigo; este da salvação”.

O ponto de partida é sempre a igualdade fundamental: convosco, sou cristão. Sobre esta igualdade fundamental está fundada a missão: para vós, sou bispo.

Um cristão que coloca como ponto de partida a igualdade fundamental como convicção real de vida não será autoridade, prepotente, prevalecido, injusto. Estas tentações rondam o cristão, mas ele está atento porque é pessoa humana como seu próximo.

Minha oração é que você seja uma (um) parteira (o) de ideias, de concepções de mundo e de vida. Que seu ponto de partida seja sempre a igualdade. Com sua maiêutica (parteira), ensine ao próximo a pensar. Que jamais venda a liberdade, pois significaria vender sua alma. Que leve sua missão até o fim, pois os verdadeiros valores humanos não tem preço.

 

Regina Lopes

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