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O pecado do pecado – Glenio Fonseca Paranaguá

O pecado do pecado
Glenio Fonseca Paranaguá

“Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”. Romanos 3:23.

Se todos pecaram, todos são pecadores. O que é um pecador? O que é pecado? Muita gente não se considera um pecador, porque tem uma concepção errada de pecado. Pecado etimologicamente significa errar o alvo. O pecado do pecado é o conceito errado que temos do pecado. Para muitos, pecado é um crime ou alguma transgressão grave. Há uma grande multidão que não se acha na condição de pecador, uma vez que esta gente é correta moralmente. Uma mulher retrucou certa vez a um pregador que a chamou de pecadora. – “Eu não sou uma fubana ou biraia qualquer. Eu sou uma mulher de respeito”. O homem não a chamou de prostituta, mas de pecadora. Entretanto, a sua concepção de pecadora esbarrava num significado vulgar.

A dificuldade em compreender o conceito de pecado gera uma atitude de descaso para um ponto que é crucial na libertação do ser humano. O pecado é uma rebeldia em relação a Deus. Não se trata propriamente de uma violação da lei moral ou uma infração de alguma norma legal. O pecado é uma atitude de independência do homem com referência a Deus. Uma das definições bíblicas de pecado é incredulidade: Tudo o que não provém de fé é pecado. Romanos 14:23b. O significado que a Bíblia oferece para a fé está ligado à palavra de Deus. Fé é crer na palavra de Deus, apesar das evidências. O apóstolo Paulo declara: A fé vem pelo ouvir e o ouvir a palavra de Deus. Romanos 10:17. Biblicamente, fé e pecado são antônimos clássicos. Adão não cometeu nenhum dolo fraudulento quando transgrediu a palavra de Deus. Ele simplesmente pecou. Pecado não é crime que nos conduz à cadeia, mas uma oposição à palavra de Deus, que nos leva ao inferno.

A altivez do coração é a base da incredulidade, e esta, o fundamento da rebeldia. Por trás da rebeldia do pecado está a descrença na palavra de Deus e no fundo da incredulidade, o desejo soberbo de ser como Deus. Nossos primeiros pais não foram delinqüentes imorais, mas insurgentes espirituais da ordenança divina. Eles não violaram o código de princípios e preceitos legais ou morais, tão somente não deram crédito à palavra de Deus. Como afirmava Thomas Merton, o pecado é a vontade de fazer o que Deus não quer, de conhecer o que ele não pretende e de amar o que ele não ama. O pecado é uma revolta contra Deus que leva o homem à pretensão de se tornar independente Dele.

Todas as vezes que nos rebelamos contra a vontade de Deus, revelada na sua palavra, cometemos pecado, uma vez que o pecado é rejeição do senhorio divino e desobediência à vontade de Deus. Toda insubordinação ao espírito da palavra de Deus é pecado. O rei Saul foi rejeitado como governante do povo de Israel, em razão de sua insurreição contra as ordens do Senhor. Deus havia autorizado a morte de todos os amalequitas e de todo o seu rebanho. Todavia, Sua Alteza o rei Saul, achou que podia preservar o melhor das ovelhas e bois para o seu sacrifício e poupar a vida do seu colega de cargo, o rei Agague. Nos alicerces do pecado estão os desejos de destronamento de Deus e entronização do eu.

Nós temos uma idéia deformada com respeito à seriedade da palavra de Deus. Muitas vezes achamos que não é coisa tão grave transgredir algumas determinações do Senhor, que nos parecem não muito sensatas. Freqüentemente assumimos o controle de certas situações impondo o nosso modo de pensar e achamos que tudo vai dar certo. Mas a Bíblia nos adverte: Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. Gálatas 6:7. E como pontuou Paul Rees, entender a vontade de Deus é meu problema; levar a efeito a vontade de Deus é meu privilégio; minimizar o valor da vontade de Deus é meu perigo. A vontade de Deus é a única régua capaz de calcular as dimensões da vida plena, pois ela é a regra singular da natureza universal.

Jesus sabia muito bem que a vontade de Deus revelada aos homens era o padrão da vida bem-aventurada. Ele sempre se pautou pelos trilhos imutáveis desta vontade e deixou bem claro que o seu ministério se baseava no cumprimento dos propósitos de seu Pai. Eu nada posso fazer de mim mesmo; na forma por que ouço, julgo. O meu juízo é justo porque não procuro a minha própria vontade, e, sim, a daquele que me enviou. João 5:30. O Senhor não seguia suas próprias opiniões pessoais, uma vez que escolheu acompanhar o traçado delineado pela da vontade soberana do Pai. O reformador João Calvino insistia: Se queremos evitar a filosofia natural insensível, precisamos sempre começar com este princípio: tudo na natureza depende da vontade de Deus, e todo o curso da natureza é apenas o efeito contínuo de suas ordens. A vida do crente não é um passeio livre e desorientado, mas uma caminhada dirigida pelo guia habilidoso de sua fé, através da via sublime da imperiosa vontade divina.

O pecado do pecado é levar o homem a tentar prosseguir nesta vida pela sua própria vontade. Nada pode ser mais cativante para a alma, e nada pode conduzir ao maior cativeiro da alma, do que andar na sua vontade particular. Quando todas as nossas vontades são satisfeitas, nos tornamos profundamente descontentes. Quando algumas das nossas vontades são contrariadas, nos tornamos aborrecidos e abatidos. Se as vontades são todas atendidas, ficamos desgostosos, porque não temos mais desafios. Se as vontades são impedidas ficamos infelizes, porque não temos realização. Assim, podemos pensar como Christopher Nesse, se não existisse vontade, não existiria inferno. Mas Jesus colocou a ênfase da sua vontade no centro da vontade de Deus. A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra. João 4:34. Segundo a Bíblia, o verdadeiro contentamento reside em viver de acordo com a vontade de Deus. O segredo da verdadeira felicidade consiste na renúncia da vontade egoísta e na submissão à vontade celestial. Então eu disse: Eis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro em meu coração está a tua lei. Salmo 40:7-8.

O destaque relevante do ministério de Jesus foi sua submissão voluntária à vontade do Pai. Ele jamais pretendeu fazer alguma coisa fora dos desígnios e deliberações de Deus, e sua decisão final foi obedecer em tudo a vontade absoluta de seu Pai celestial. No momento crucial de sua existência aqui na terra, a luta em oração no Getsêmani esbarrava com esta vontade. Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e, sim, a tua. Lucas 22:42. Mas ele via esta conformação com a vontade de Deus como a alternativa exclusiva de vencer toda força do pecado. Perfeitamente amoldado ao querer de Deus, o Senhor Jesus sabia com clareza, que para este mundo Deus tem planos, não problemas. Nunca ocorre pânico no céu.

Ninguém poderá ser realmente feliz fora da vontade revelada de Deus. Mesmos as coisas que achamos sem a maior relevância, se forem determinadas por Deus, devemos levar em consideração. Por exemplo: Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns, antes façamos admoestações, e tanto mais quanto vedes que o dia se aproxima. Hebreus 10:25. Pode parecer bobagem, mas se a Bíblia mostra que é importante a igreja se reunir para os seus cultos de adoração e ensino, fica muito esquisito eu optar por outra atividade mais interessante naquela mesma ocasião. Não quero ser um legalista, mas quero estar afinado com a vontade de Deus. Se a palavra de Deus afirma que se deve perdoar setenta vezes sete, posso até admitir que o número é um tanto exagerado, mas não tenho outra alternativa sem me distanciar da vontade revelada de Deus. A arrogância do pecado, o pecado do pecado ou o erro do pecado é achar que posso determinar a minha existência por aquilo que considero significativo, fora da vontade expressa de Deus revelada na Bíblia.

Mesmo as pessoas mais dignas e todas aquelas livres de qualquer suspeita moral estarão pecando gravemente se estiverem fora da vontade divina demonstrada na palavra de Deus. Deste modo, ninguém pode afirmar que não peca. Por outro lado, se deliberadamente nos encastelarmos no sentimento de rebeldia voluntária, fica muito difícil defender a nossa participação na família de Deus. É impossível o homem não pecar, mas também é impossível conciliar a vida liberta de um salvo em Cristo, com a rebeldia voluntária aos fundamentos da vontade de Deus. É só pela graça divina que o crente pode obedecer as normas da vontade de Deus. Entretanto, a obediência cristã não é nenhuma escravidão ao legalismo dominador. É apenas a sujeição voluntária à vontade de Deus, de alguém que foi liberto pela graça de Cristo.

Glenio Fonseca Paranaguá é pastor
e colaborador do eucreio.com

 

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